Fuga


Publicado em 28 de Abril de 2026 ás 16h 45min

Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.

 

— Pára com esse barulho, meu filho — falou, sem se voltar.

 

Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.

 

— Pois então pára de empurrar a cadeira.

 

— Eu vou embora — foi a resposta.

 

Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? — a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.

 

A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu ? menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:

 

— Viu um menino saindo desta casa? — gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.

 

— Saiu agora mesmo com uma trouxinha — informou ele.

 

Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabi?baixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido -uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância

 

— Meu filho, cuidado!

 

O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:

 

— Que susto você me passou, meu filho — e apertava-o contra o peito, comovido.

 

— Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.

 

Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:

 

— Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai

 

— Me larga. Eu quero ir embora.

 

Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala-tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa

 

— Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.

 

— Fico, mas vou empurrar esta cadeira.

 

E o barulho recomeçou.

 

SABINO, Fernando. A fuga. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.