Em dezembro


Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 15h 25min

(01) Em dezembro mangas maduras eram vistas da janela ? mas antes disso já tínhamos comido muita manga verde com sal, tirado escondido da cozinha.

 

(02) Verde por fora e branca por dentro, a manga ringia com o canivete ? o caroço branco e mole jogado fora e descoberto depois:

 

(03) ? Quem comeu manga verde? Vamos, confessa, já.

 

(04) Nenhum confessava: os dois de castigo.

 

(05) Mostrei para Neusa a manga amoitada no capim: começava a amarelar. Ela cheirou, apertou contra o rosto, me pediu.

 

(06) ? Dou um pedaço.

 

(07) ? Quero a manga inteira.

 

(08) ? Um pedaço.

 

(09) ? A manga inteira ou nada.

 

(10) ? Então nada.

 

(11) Quando entrei na cozinha, Vovó estava me esperando:

 

(12) ? Pode ir direto para o quarto, já sei de tudo.

 

(13) Fiquei fechado de castigo até a hora da janta.

 

(14) ? Se tornar a comer manga verde, da próxima vez vai é apanhar de vara, ouviu?

 

(15) Quem apanhou de vara foi Neusa. Cerquei-a no fundo do quintal com uma vara:

 

(16) ? Você enredou, agora vai pagar.

 

(17) Ela disse que gritaria. Eu disse que, se gritasse, apanhava mais ainda. Se não gritasse, apanhava menos. E se suspendesse a roupa, não apanhava nada, eu a deixava ir embora.

 

(18) ? Não.

 

(19) ? Então vai apanhar.

 

(20) Ela pediu pelo amor de Deus. Perguntei se ela gostava de mim. Ela disse que gostava. Pedi pra ela dizer: “Eu te amo”. Ela disse. “Te amo mais que tudo no mundo”. Ela disse. Eu falei que era mentira, que ela gostava é de Marcelo. Então ela disse que era mentira mesmo, que tinha é nojo de mim, e eu desci uma varada nas pernas dela. Em vez de correr, ela ficou parada, encolhida contra o muro, enquanto de vara na mão eu gritava:

 

(21) ? Pede perdão, senão eu bato de novo!

 

(22) Ela não pediu, e eu bati de novo. Ela escondeu o rosto no braço e começou a chorar.

 

(23) ? Pede!

 

,

(24) Ameacei com a vara, mas ela só chorava. Então bati de novo, e dessa vez ela nem se mexeu, como se não tivesse sentido dor. Foi andando em direção à casa, e eu fiquei parado, vendo-a afastar-se.

 

(25) Vovó me perguntou quê que tinha havido com ela que ela não queria contar (da cozinha eu escutava seus soluços no quarto).

 

(26) ? Estávamos brincando, ela caiu e machucou.

 

(27) Vovó foi no quarto:

 

(28) ? Molenga, só porque esfolou um pouco a perna tem que chorar desse jeito?

 

(29) Ao voltar para casa, deixei três moranguinhos na mesinha do quarto onde ela, deitada, havia adormecido.

 

(30) No dia seguinte recebi uma caixinha embrulhada ? dentro os três moranguinhos e um bilhete: “Eu gostava é de você mesmo, mas agora nunca mais”.

 

 

Fonte: VILELA, Luiz. No Bar (contos). Rio de Janeiro, Blo

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